Controladores PID
Microprocessados
Este
artigo pretende criar no leitor uma percepção física do funcionamento
de um controle PID, sem grandes análises e rigorismos matemáticos,
visando introduzir a técnica aos iniciantes e aprimorar o conhecimento
dos já iniciados, com a abordagem mais prática e simplificada possível.
Noções preliminares:
Algumas
definições de siglas e termos utilizados neste artigo:
PV:
Process Variable ou variável de processo. Variável que é controlada
no processo, como temperatura, pressão, umidade, etc.
SV
ou SP: Setpoint. Valor desejado para a variável de processo.
MV:
Variável Manipulada. Variável sobre a qual o controlador atua para
controlar o processo, como posição de uma válvula, tensão aplicada
a uma resistência de aquecimento, etc.
Erro
ou Desvio: Diferença entre SV e PV. SV-PV para ação reversa
e PV-SV para ação direta.
Ação
de controle: Pode ser reversa ou direta. Define genericamente
a atuação aplicada à MV na ocorrência de variações da PV.
Ação
Reversa: Se PV aumenta, MV diminui. Tipicamente utilizada em
controles de aquecimento.
Ação
Direta: Se PV aumenta, MV aumenta. Tipicamente utilizada em
controles de refrigeração.
A
técnica de controle PID consiste em calcular um valor de atuação
sobre o processo a partir das informações do valor desejado e do
valor atual da variável do processo. Este valor de atuação sobre
o processo é transformado em um sinal adequado ao atuador utilizado
(válvula, motor, relé), e deve garantir um controle estável e preciso.
De
uma maneira bem simples, o PID é a composição de 3 ações quase intuitivas,
conforme resume o quadro a seguir:
P
|
CORREÇÃO
PROPORCIONAL AO ERRO
|
A
correção a ser aplicada ao processo deve crescer na proporção
que cresce o erro entre o valor real e o desejado.
|
|
I
|
CORREÇÃO
PROPORCIONAL AO PRODUTO ERRO x TEMPO
|
Erros
pequenos mas que existem há muito tempo requerem correção
mais intensa.
|
|
D
|
CORREÇÃO
PROPORCIONAL À TAXA DE VARIAÇÃO DO ERRO
|
Se
o erro está variando muito rápido, esta taxa de variação
deve ser reduzida para evitar oscilações.
|
Um
pouco de matemática
A
equação mais usual do PID é apresentada a seguir:

Onde
Kp, Ki e Kd são os ganhos das parcelas P, I
e D, e definem a intensidade de cada ação.
Equipamentos
PID de diferentes fabricantes implementam esta equação de diferentes
maneiras. É usual a adoção do conceito de “Banda Proporcional”
em substituição a Kp, “Tempo derivativo” em substituição
a Kd e “Taxa Integral” ou “Reset” em substituição
a Ki, ficando a equação da seguinte forma.

Onde
Pb, Ir e Td estão relacionados a Kp,
Ki e Kd e serão individualmente abordados ao longo
deste texto.
Controle
Proporcional
No
controle Proporcional, o valor de MV é proporcional ao valor
do desvio (SV-PV, para ação reversa de controle), ou seja, para
desvio zero (SV=PV), MV=0; à medida que o desvio cresce, MV aumenta
até o máximo de 100%. O valor de desvio que provoca MV=100% define
a Banda Proporcional (Pb). Com Pb alta, a saída MV
só irá assumir um valor alto para corrigir o processo se o desvio
for alto. Com Pb baixa, a saída MV assume valores altos de
correção para o processo mesmo para pequenos desvios. Em resumo,
quanto menor o valor de Pb, mais forte é a ação proporcional
de controle.
A
figura a seguir ilustra o efeito da variação de Pb no controle
de um processo.

Figura
1 – Efeito da redução de PB no comportamento de PV
Em
(1.A), com a banda proporcional grande, o processo estabiliza, porém
muito abaixo do setpoint. Com a diminuição da banda proporcional
(1.B), a estabilização ocorre mais próximo do setpoint, mas uma
redução excessiva da banda proporcional (1.C) pode levar o processo
à instabilidade (oscilação). O ajuste da banda proporcional faz
parte do processo chamado de Sintonia do controle.
Quando
a condição desejada (PV=SV) é atingida, o termo proporcional resulta
em MV=0, ou seja, nenhuma energia é entregue ao processo, o que
faz com que volte a surgir desvio. Por causa disto, um controle
proporcional puro nunca consegue estabilizar com PV=SV.
Muitos
controladores que operam apenas no modo Proporcional, adicionam
um valor constante à saída de MV para garantir que na condição PV=SV
alguma energia seja entregue ao sistema, tipicamente 50%. Este valor
constante é denominado Bias (polarização), e quando ajustável
permite que se obtenha uma estabilização de PV mais próxima a SV.
Incluindo
o controle Integral - PI
O
integral não é, isoladamente, uma técnica de controle, pois não
pode ser empregado separado de uma ação proporcional. A ação integral
consiste em uma resposta na saída do controlador (MV) que é proporcional
à amplitude e duração do desvio. A ação integral tem o efeito
de eliminar o desvio característico de um controle puramente proporcional.
Para
compreender melhor, imagine um processo estabilizado com controle
P, conforme apresentado na figura 2.A.

Figura
2 – Efeito da inclusão do controle Integral - PI
Em
2.A, PV e MV atingem uma condição de equilíbrio em que a quantidade
de energia entregue ao sistema (MV), é a necessária para manter
PV no valor em que ela está. O processo irá permanecer estável nesta
condição se nenhuma perturbação ocorrer. Apesar de estável, o processo
não atingiu o setpoint (SV), existindo o chamado Erro em Regime
Permanente.
Agora
observe a figura 2.B, onde no instante assinalado, foi incluída
a ação integral. Observe a gradual elevação do valor de MV e a conseqüente
eliminação do erro em regime permanente. Com a inclusão da ação
integral, o valor de MV é alterado progressivamente no sentido de
eliminar o erro de PV, até que PV e MV alcancem um novo equilíbrio,
mas agora com PV=SV.
A
ação integral funciona da seguinte maneira: A intervalos regulares,
a ação integral corrige o valor de MV, somando a esta o valor do
desvio SV-PV. Este intervalo de atuação se chama Tempo Integral,
que pode também ser expresso por seu inverso, chamado Taxa Integral
(Ir). O aumento da Taxa Integral – Ir – aumenta a
atuação do Integral no controle do processo.
A
ação integral tem como único objetivo eliminar o erro em regime
permanente, e a adoção de um termo integral excessivamente atuante
pode levar o processo à instabilidade. A adoção de um integral pouco
atuante, retarda em demasia a estabilização PV=SV.
Incluindo
o controle derivativo - PD
O
derivativo não é, isoladamente, uma técnica de controle, pois não
pode ser empregado separado de uma ação proporcional. A ação derivativa
consiste em uma resposta na saída do controlador (MV) que é proporcional
à velocidade de variação do desvio. A ação derivativa tem o
efeito de reduzir a velocidade das variações de PV, evitando que
se eleve ou reduza muito rapidamente.
O
derivativo só atua quando há variação no erro. Se o processo está
estável, seu efeito é nulo. Durante perturbações ou na partida do
processo, quando o erro está variando, o derivativo sempre atua
no sentido de atenuar as variações, sendo portanto sua principal
função melhorar o desempenho do processo durante os transitórios.
A
figura 3 compara respostas hipotéticas de um processo com controle
P (A) e PD (B):

Figura
3 – Comparação de um controle P com um controle PD
No
controle P (figura 3.A), se a banda proporcional é pequena, é bem
provável que ocorra ‘overshoot’, onde PV ultrapassa SV antes de
estabilizar. Isto ocorre pelo longo tempo em que MV esteve no seu
valor máximo e por ter sua redução iniciada já muito próximo de
SV, quando já é tarde para impedir o overshoot. Uma solução seria
aumentar a banda proporcional, mas isto aumentaria o erro em regime
permanente. Outra solução é incluir o controle derivativo (figura
3.B), que reduz o valor de MV se PV está crescendo muito rápido.
Ao antecipar a variação de PV, a ação derivativa reduz ou elimina
o overshoot e as oscilações no período transitório do processo.
Matematicamente,
a contribuição do derivativo no controle é calculada da seguinte
maneira: A intervalos regulares, o controlador calcula a variação
do desvio do processo, somando à MV o valor desta variação. Se PV
está aumentando, o desvio está reduzindo, resultando em uma variação
negativa, que reduz o valor de MV e conseqüentemente retarda a elevação
de PV. A intensidade da ação derivativa é ajustada variando-se o
intervalo de cálculo da diferença, sendo este parâmetro chamado
Tempo Derivativo – Td. O aumento do valor de Td aumenta
a ação derivativa, reduzindo a velocidade de variação de PV.
Controle
PID
Ao
unir as 3 técnicas conseguimos unir o controle básico do P com a
eliminação do erro do I e com a redução de oscilações do D, mas
se cria a dificuldade de ajustar a intensidade da cada um dos termos,
processo chamado de sintonia do PID.
Sintonia
do controle PID?
A
bibliografia de controle apresenta diversas técnicas para sintonia,
tanto operando o processo em manual (malha aberta) quanto em automático
(malha fechada). Foge ao objetivo deste artigo apresentar estas
técnicas. A grande maioria dos controladores PID industriais incorporam
recursos de “Auto Tune”, em que o controlador aplica um ensaio ao
processo e obtém o conjunto de parâmetros do PID (Pb, Ir
e Td). Para a maior parte dos processos, este cálculo é adequado,
mas em muitos casos, é necessária a correção manual para atingir
um desempenho de controle mais satisfatório (menos overshoot, estabilização
mais rápida, etc.).
Para
efetuar manualmente esta correção, é fundamental a compreensão dos
princípios de funcionamento aqui expostos. A seguir são apresentadas
diretrizes para otimização manual do desempenho de um controlador
PID.
Corrigindo
manualmente o PID
Em muitos casos é necessário ajuste da sintonia após a conclusão
do Auto Tune. Este ajuste é manual e deve ser feito por tentativa
e erro, aplicando uma alteração nos parâmetros PID e verificando
o desempenho do processo, até que o desempenho desejado seja obtido.
Para isto é necessário conhecimento do efeito de cada parâmetro
do PID sobre o desempenho do controle, além de experiência em diferentes
processos.
As
definições de um bom desempenho de controle são também bastante
variadas, e muitas vezes o usuário espera de seu sistema uma resposta
que ele não tem capacidade de atingir, independente do controlador
utilizado. É comum o operador reclamar que a temperatura do forno
demora muito a subir, mas o controlador está com MV sempre a 100%,
ou seja, não tem mais o que fazer para acelerar. Também às vezes
o operador quer velocidade mas não quer overshoot, o que muitas
vezes é conflitante.
Na
avaliação do desempenho do controlador, é importante analisar o
comportamento da PV e MV, e verificar se o controlador está atuando
sobre MV nos momentos adequados. Coloque-se no lugar do controlador
e imagine o que você faria com a MV, e compare com a ação tomada
pelo controlador. À medida que se adquire experiência, este tipo
de julgamento passa a ser bastante eficiente.
A
tabela 1 a seguir resume o efeito de cada um dos parâmetros sobre
o desempenho do processo:
|
Parâmetro
|
Ao
aumentar, o processo ...
|
Ao
diminuir, o processo ...
|
|
Pb
|
Torna-se
mais lento.
Geralmente
se torna mais estável ou menos oscilante.
Tem
menos overshoot
|
Torna-se
mais rápido
Fica
mais instável ou mais oscilante
Tem
mais overshoot
|
Ir
|
Torna-se
mais rápido, atingindo rapidamente o setpoint
Fica
mais instável ou mais oscilante
Tem
mais overshoot
|
Torna-se
mais lento, demorando para atingir o setpoint
Fica
mais estável ou mais oscilante.
Tem
menos overshoot.
|
tD
|
Torna-se
mais lento.
Tem
menos overshoot
|
Tem
mais overshoot
|
Tabela
1 – O efeito de cada parâmetro PID sobre o processo
A
tabela 2 a seguir apresenta sugestões de alteração nos parâmetros
PID baseadas no comportamento do processo, visando sua melhoria:
|
Se
o desempenho do processo ...
|
Tente
uma a uma as opções:
|
|
Está
quase bom, mas o overshoot está um pouco alto
|
Aumentar
PB em 20%
Diminuir
IR em 20%
Aumentar
DT em 50%
|
|
Está
quase bom, mas não tem overshoot e demora para atingir o
setpoint
|
Diminuir
PB em 20%
Aumentar
IR em 20%
Diminuir
DT em 50%
|
|
Está
bom, mas MV está sempre variando entre 0% e 100% ou está
variando demais.
|
Diminuir
DT em 50%
Aumentar
PB em 20%
|
|
Está
ruim. Após a partida, o transitório dura vários períodos
de oscilação, que reduz muito lentamente ou não reduz.
|
Aumentar
PB em 50%
|
|
Está
ruim. Após a partida avança lentamente em direção ao setpoint,
sem overshoot. Ainda está longe do setpoint e MV já é menor
que 100%
|
Diminuir
PB em 50%
Aumentar
IR em 50%
Diminuir
DT em 70%
|
Tabela
2 – Como melhorar o desempenho do processo
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