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Lúcia
Moreira
O
principal objetivo da calibração é estabelecer
a relação entre um dado dispositivo de medição
e o Sistema Internacional de Unidades (SI), que no caso da temperatura
é representado pela Escala Internacional de Temperatura de
1990. A calibração é, portanto, a forma de
se relacionar a indicação de um termômetro desconhecido
com a temperatura real.
Sensores de temperatura ou simplesmente termômetros são
usualmente calibrados pelo método da comparação
que é o mais rápido, mais simples e mais econômico.
Um sistema de calibração por comparação
é formado por um termômetro calibrado (através
do qual se obtém a rastreabilidade) e um meio de temperatura
de uniformidade conhecida que cubra a faixa de temperatura desejada.
O termômetro padrão pode ser um termômetro de
líquido em vidro, um termopar ou um termômetro de resistência,
acoplados a um indicador.
A calibração por comparação fundamenta-se
na Lei Zero da Termodinâmica que diz:
Se dois sistemas estão separadamente em equilíbrio
térmico com um terceiro, então estarão em equilíbrio
térmico entre si.
O sistema 1 é o termômetro padrão, o sistema
2 é o termômetro em calibração e o sistema
3 é o banho ou forno de calibração.
Existem diversos tipos de banhos ou fornos de calibração
e as características de construção de cada
um determinarão com que "eficiência" se consegue
atingir o equilíbrio térmico. Essa uniformidade do
meio térmico é um importante fator na incerteza da
calibração por comparação de termômetros
e é fundamental uma avaliação adequada da sua
influência nos resultados obtidos.
Os banhos de bloco metálico, também conhecidos como
fornos portáteis, são os preferidos para a maioria
das calibrações industriais, pelo fato de conciliarem
praticidade com uma boa relação custo/benefício.
Esses banhos foram introduzidos no Brasil há cerca de 10
anos e atualmente, o usuário dispõe de inúmeras
opções de diversos fabricantes.
Seria desejável que os fabricantes fornecessem ao usuário
potencial uma análise completa do que se pode esperar de
cada modelo, informação esta indispensável,
inclusive, para a escolha do equipamento mais adequado. Entretanto,
apenas em alguns casos estas informações estão
disponíveis.
É comum o fabricante fornecer a estabilidade do seu
forno. Essa informação, na verdade, apenas reflete
a qualidade do sistema de controle utilizado. A uniformidade
é a característica que irá influir mais significativamente
nos resultados da calibração. Isso porque embora exista
o equilíbrio térmico, ele não é perfeito
como supomos ao realizar a comparação.
Para fazer uma análise de incerteza realista, o usuário
deverá avaliar o desempenho do seu banho ou forno de calibração.
A "European co-operation for Accreditation" é uma
entidade que se propõe a auxiliar a eliminar as barreiras
técnicas ao comércio promovendo, entre outras atividades,
a aceitação universal de certificados credenciados.
O documento EA-10/13 Guidelines on the Calibration of Temperature
Block Calibrators (Guia para a Calibração de Calibradores
de Temperatura de Bloco) dá as diretrizes para a calibração
de banhos de bloco metálico quando se pretende usar a própria
indicação do conjunto sensor de controle + controlador
como a referência ao SI. Minha opinião particular é
que essa prática só deve ser adotada quando não
for realmente possível usar um termômetro padrão
externo que, colocado junto com o termômetro em calibração,
dentro do bloco equalizador do forno, estará sujeito às
mesmas oscilações que o termômetro desconhecido,
no momento da calibração.
Seja qual for o sistema de obtenção da rastreabilidade
escolhido, esse documento traz valiosas orientações
sobre o que deve ser avaliado num banho de bloco metálico
e algumas indicações sobre como fazê-lo.
Homogeneidade axial
Trata-se do perfil térmico dentro do orifício de calibração,
ao longo da zona de medição. O documento afirma que
o banho deve ter uma zona de medição com pelo menos
40 mm de "suficiente" homogeneidade de temperatura. O
que vai determinar a magnitude do "suficiente" é
a incerteza máxima permitida ou desejada para uma dada aplicação.
O documento recomenda ainda que, para esta avaliação,
seja usado um termômetro de resistência com elemento
sensor de 5 mm e diâmetro £ 6 mm (para minimizar as
perdas por condução) na faixa de -80 a 660ºC
e um termopar de metal nobre de 660 a 1300ºC.
A avaliação é realizada na temperatura do limite
superior e do limite inferior de operação do banho.
Se um desses pontos de medição coincidir com a temperatura
ambiente, deve-se aumentá-lo ou diminuí-lo em 20ºC.
Devem ser efetuadas 4 medições, no orifício
central ou em um orifício marcado:
- Termômetro no fundo do orifício;
- Termômetro a 20 mm do fundo do orifício;
- Termômetro a 40 mm do fundo do orifício;
- Termômetro no fundo do orifício.
A maior diferença encontrada será considerada na avaliação
da incerteza.
Homogeneidade radial
Trata-se da diferença de temperatura entre os orifícios
diferentes destinados à calibração. A avaliação
é realizada em pelo menos três temperaturas distribuídas
na da faixa de operação do forno.
A maior diferença encontrada será considerada na avaliação
da incerteza.
Efeito do carregamento
Esse fator somente influencia as medições nas quais
se usa o conjunto sensor de controle + controlador como padrão.
O controlador do forno portátil, depois de atingido o equilíbrio,
estará sempre indicando o set point que foi programado, independente
da carga do bloco. Se o bloco tem 4 orifícios, a temperatura
no interior do bloco será um pouco diferente dependendo se
estiverem sendo usados 1, 2 ou todos os orifícios. Dependendo
do modelo e da temperatura, essa diferença pode atingir magnitudes
que interferem nos resultados da calibração (0,5 a
2,5ºC).
O documento sugere que com um termômetro padrão num
dos orifícios, seja introduzida um bastão metálico
de 6 mm de diâmetro e com um comprimento que garanta que pelo
menos 200 mm fique para fora do bloco. Aguarda-se a estabilização
e registra-se a variação observada na temperatura.
Este teste deve ser realizado na temperatura mais distante da temperatura
ambiente.
Estabilidade
A estabilidade é a máxima variação na
temperatura indicada por um sensor na zona de medição,
ao longo de 30 minutos, após o sistema ter atingido o equilíbrio.
As medições devem ser realizadas em três temperaturas
diferentes: a maior, a menor e a temperatura ambiente.
Perdas por condução
Os banhos de bloco metálico possuem uma profundidade de imersão
que pode variar entre 80 e 180 mm, conforme o fabricante e o modelo.
Um termômetro imerso num banho estará sujeito a um
fluxo de calor que será tão mais intenso quanto maior
for a diferença entre a temperatura do sistema e a temperatura
ambiente.
Os sensores devem sempre tocar o fundo do bloco e os orifícios
de calibração devem possuir um diâmetro interno
apenas 0,5 mm (de -80 a 660ºC) ou 1 mm (de 660 a 1300ºC)
maior que o diâmetro do sensor que ali será calibrado.
Para sensores com até 6 mm de diâmetro, uma imersão
igual a 15 vezes esse diâmetro, ou seja, 90 mm pode ser considerada
suficiente, de acordo com esse documento. Para diâmetros maiores,
dependendo de acordo entre fornecedor e cliente, as perdas por condução
poderão ser investigadas.
Calibração de fornos portáteis
A calibração de fornos portáteis ainda não
consta da relação padronizada de serviços de
calibração credenciados da RBC. Os laboratórios
que calibram fornos portáteis os tratam como um conjunto
sensor de temperatura + indicador e, usualmente, não consideram
todos esses tópicos aqui abordados na incerteza da calibração
desse forno.
O uso do próprio forno como referência de temperatura
já se tornou uma realidade.
Muitos usuários, entretanto, desconhecem que esses diversos
fatores aqui relacionados influenciam a incerteza das suas calibrações
e, provavelmente, estão avaliando as incertezas de forma
excessivamente otimista.
A avaliação de desempenho como aqui exposta é
uma operação demorada e custosa. Por outro lado, o
usuário do equipamento muitas vezes não tem experiência
suficiente ou equipamentos adequados para chegar a resultados conclusivos.
De quem é a responsabilidade pela avaliação
de desempenho? Do fabricante forno, do laboratório de calibração
ou do usuário final? O documento dá a entender que
é do laboratório de calibração. Quanto
deverá custar uma calibração como essa? Será
que o usuário está suficientemente esclarecido para
pagar por ela?
Esse é um debate importante ao qual, na minha opinião,
a comunidade de temperatura deve se dedicar. Seja de quem for a
responsabilidade, ela deve ficar clara tanto para o fornecedor quanto
para o cliente.
O texto integral do EA-10-13 e outros documentos EA relacionados
à temperatura podem ser encontrados clicando
aqui
(Matéria publicada na Revista Metrologia e Instrumentação,
nº 7, Agosto
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